sexta-feira, 9 de abril de 2010

Remate


sinto-me tão plena
que me espanto tamanha euforia
de estar só em só alegria
a observar-te no meu encalço

o que me faz extremada de gozos
ver-te verter que te apareças
escrita, falada ou muda
a qualquer hora do tempo

e na paisagem interior,
impossível transgressora
amá-lo mais do que possa
até virar-te pelo avesso

entretanto foi uma fábula
tudo que vivemos
anéis sem aro sem vidro sem brilho
deixemos assim simplesmente

ainda que estamos íntegros
nem cortes nem cicatrizes
façamos como nos filmes:
final feliz, The End.


Lúcia Gönczy
cada um expurga
sua dor
como pode
A minha
é sangrar
através
das palavras


Lúcia Gönczy
Trajetória

não quero a recompensa
dos reconhecimentos
[póstumos]
quero o aqui e agora
o instante, o ato
as coisas que fragmentam
como a fragilidade das borboletas
e as pontes que reconstruo
com a força de um leão
[a cada momento]
sem olhar para trás

Lúcia Gönczy



quarta-feira, 7 de abril de 2010

Carta pra ninguém [III]


Amanhã deveria ser um dia comum, cinza, chuvoso,
como tem sido os últimos dias dela, inclusive os de Sol.
Banal, rotineiro, se não fosse o problema de passar naquela rua...
Sim, aquela da tinta, lembra-se?
Ela não entende por que é obrigada a voltar aos mesmos lugares;
Martírio! Tudo é ele o tempo todo: infrações, multas, motores...
Ter de encarar isso é barra; sente-se fragilizada diante das coincidências e,
impotente, por não poder evitá-las; simplesmente tem de continuar
vivendo...passando...enfrentando a fera, sua dor e seus fantasmas.
Então se programa: acordar cedo, escovar dentes, pentear macaco;
durante o processo a cabeça não pára: não pensar não pensar não pensar... será possível?
Se quanto mais se esforça mais se lembra?!...loucura! Sua cabeça é uma usina nuclear no amanhã que,
de alguma forma, será e não será. Ela passará por ali, inevitavelmente, e já sente de antemão o que irá sentir:
um frio louco por dentro; aquele vazio latejando o silêncio do celular.
Dorme pouco...seu sono é nervoso; fragmentado...sem ele tudo nela é oco; mas, mesmo assim, amanhece
e não dá outra: maktub conforme "ontem". Os sintomas de frio, ausência, saudade e dor eram os mesmos;
(talvez mais acentuados pela ansiedade...)
Entretanto não vacilou. Resgatou na zona abissal do seu íntimo os últimos resquícios de dignidade,
jogou "agua na cara" e foi dar sua veia a uma estranha.
Sair no escuro... logo ela que acha esquisito dizer bom dia quando ainda tem lua... Por sorte,
todos bichos papões que conhece a habitam; está acostumada. Aprendeu a lidar com eles utilizando
estratégia maquiavélica, tipo: melhor ter os inimigos por perto... Desta forma, acreditando, vestiu coragem e saiu:-
Liberdade, Sé, Pátio do Colégio...ai que bom; chegou "bem" na Boa vista, mesmo tendo
ultrapassado 2 sinais vermelhos; quanto mais passava, maiores alegrias, também maiores mágoas.
Com certeza, o carro se auto conduziu , porque ela que não queria pensar, olhar,
sentir e planejou escapar ilesa, se pegou desesperada a buscar nas ruas, nas casas,
nos ônibus e até nas primas, alguma lembrança boa e eram todas tão boas que embarcou na viagem;
Porém, quando você se encontra assim, sob efeito tóxico da paixão, costuma entrar naquele surto psicótico (psicoamorótico)
e, portanto, ela o via em toda parte; mas pirar, pirou mesmo na Praça da Sé. Ah...a Praça da Sé!!!...
Embora fosse dia, era noite; tão noite quanto infinitas 19 horas...tão clara quanto seus faróis. Era lá que ela carregava
seu olhar no dele...E aquele semáforo da curvinha, então?... Fechava sempre na hora certa para se beijarem.
Porra, como ela gostava destes momentos! Mas hoje, explicavelmente, ele ficou vermelho e ela sozinha.
Sem seu amor, sua boca, sem nenhum de seus bichinhos...
Foi aí que se deu conta: Na real, quem estava no vermelho, há tempos, não era o semáforo...
Caiu do sonho. Cabisbaixa, com o rabo entre as pernas, acordou pra vida, mas antes, se prometeu:
Com ela, ele não vai mais... Da próxima vez, sai de casa sem cabeça.


Lúcia Gönczy

quinta-feira, 25 de março de 2010

valsa

eu não vou mandar mais florzinhas pra você
nem beijinhos ou bichinhos animados; tampouco
aquele bom dia desajeitado, como quem espera ser
chamado atrás da porta, mesmo estando na última fila;
não, eu não vou mais confessar os meus segredos, até porque,
você já os conhece de cor e salteado; mas eu preciso muito
te dizer umas últimas palavras; normal...a gente sempre
diz fim sem saber o "quanto falta"... e sempre falta!
eu vou te dizer a única que não disse antes por achar
nosso amor eterno; "na verdade", acreditei no que acreditávamos;
e "a verdade" é que eu continuo naquele patamar meio desconsolado
cavando degraus na minha sepultura, pra meio louca te tirar do pedestal.
*ensandeci. nada de andor ou carruagem
afinal, dancei bonito e você nem era o príncipe encantado.



Lúcia Gönczy
eu sei


eu sei,
você vai fugir, vai se esquivar
por ter medo de falar
coisas que eu não quero ouvir.
eu sei,
você vai silenciar
sem saber que só aumenta
minha angustia de entender
o que se passa com você.
também sei,
que o tempo vai passar
e selar nossas tristezas...
pondo as cartas sobre a mesa
vai fechando cicatrizes
mas a fenda que há por dentro
desta ausência tão sentida
ficará ampla , irrestrita
no meu peito para sempre
feito chaga que não cura
sangrando sempre em dias cinzas.



Lúcia Gönczy
DOR


nos olhos:-
[água]

no coração:-
[faca]

na janela:-
[“apenas”]

uma fresta
para matar
os ácaros




(Lúcia Gönczy
)

segunda-feira, 8 de março de 2010



contrato

quero a pérfida palavra
o sumo, a acidez da verdade
e no mais,
não quero nada
a não ser a essência
do último trago
e se isso significa veneno,
não me importo;
prefiro a morte rápida
a ser enganada de forma
homeopática
pensas: fazendo assim talvez
ela sofra menos...
saiba: este teu jeito absurdo
de entender o mundo
desacata meus sentimentos
e não me poupa a fragilidade;
compulsiva-me sim, a odiar-te
bem mais do que te amei.


Lúcia Gönczy

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010


Alguns poemas do meu livro de 2007




eu não me importo
não me importo com a mansidão do teu silêncio
não me importo com descontentamentos
nem me importo com os recomeços
eu não me importo
não me importo com certos fantasmas
como solidãosaudademedo
eu não me importo
não me importo em voar

desde que seja só pra pousar no seu olhar

Lúcia Gönczy



Pro
Funda
Mente
minhas lentes
capturam
tua
imagem

Relutante vens a mim
neste vácuo
contorno metalizado
pós moderno
em olhares surreais

E é como de fora
meus olhos te puxassem
e tuas cores transpusessem
o universo da paisagem

Quero-te pleno
todo ótica
Quero-te dentro
da utopia e do
desejo
Quero-te rio
límpido
pedra
limo


Quero-te sol
Quero-te lua
Quero-te chuva e
acima de tudo
Quero-te Livre
de todas as maneiras
que a natureza
me conceder


Lúcia Gönczy

nossos mortos não vestem luto/perambulam pelas ruas/dormem sob viadutos/comem ratos/bebem água de esgoto./ nossos mortos não vestem luto/possuem o olhar parado/andam em círculos/ não tem família nem amigos/são seres excretados/como as fezes que os vestem./nossos mortos não vestem luto/sobrevivem porque a vida é forte/e embora isso não te diga nada, saiba:nossos mortos não vestem luto/nossa consciência é depravada/nessa ausência de sentidos/somos nós, alienados...nossos mortos não vestem luto./nossos mortos estão VIVOS!

Lúcia Gönczy


quando as comportas se abrem
o cerco se fecha
vozes se calam
noites vegetam
dias se deitam
há paradigmas
estruturas se delatam
e deletam
tropeços, acertos
con-tato sem tato
sombras, pensamentos
tudo vago vaga socorrendo-se
ao tempo que se liberta
de trancas e amarras
[...]
Lúcia Gönczy